Sobre

Ao tornar-me, à força, intrinsecamente consciente da minha mortalidade, e do que desejava para minha vida, ainda que esta pudesse ser curta, prioridades e omissões vieram à tona sob uma luz impiedosa, e o que eu mais me arrependia era dos meus silêncios. Do que eu tive tanto medo? Questionar ou falar, como eu acreditava, poderiam significar sofrimento ou morte. Mas todos nós sofremos de tantas diferentes maneiras todo o tempo, e essa dor iria passar ou acabar. A morte, por outro lado, é o silêncio final. E ela pode estar chegando rapidamente, nesse momento, sem se importar se eu tinha falado o que precisava ser dito ou se apenas tinha me traído com pequenos silêncios, enquanto eu planejava por falar algum dia ou esperar pelas palavras de um outro alguém. Então eu comecei a reconhecer uma fonte de poder dentro de mim que era consequência da ideia que, embora fosse melhor não ter medo, aprender a ver o medo de outra forma me daria uma grande força.

Eu iria morrer, cedo ou tarde, tendo dito isto à mim mesma ou não. Meu silêncio não tinha me protegido. Seu silêncio não irá te proteger. Mas para cada palavra falada, para cada tentativa que já tinha feito de falar essas verdades que eu ainda estou procurando, eu tinha entrado em contato com outra mulher enquanto nós examinávamos as palavras que caberiam em um mundo que todas nós acreditávamos, construindo pontes entre nossas diferenças. E foi a preocupação e o cuidado dessas mulheres que me deram força e me possibilitaram investigar minuciosamente os fundamentos da minha vida.

As mulheres que me sustentaram durante esse período eram negras e brancas, idosas e jovens, lésbicas, bissexuais e heterossexuais, e todas nós compartilhamos uma guerra contra as tiranias do silêncio. Todas elas me deram uma força sem a qual eu não teria sobrevivido intacta. Durante essas semanas de um profundo medo compreendi – durante essa guerra que todas estamos travando com as forças de morte, sutis ou não, conscientes ou não – que eu não sou uma vítima, eu sou uma guerreira.
Audre Lorde em A Transformação do Silêncio em Fala e Ação

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Certa vez eu li que pra escrever é preciso coragem. Marginália é sobre isso. Sobre o medo e a vontade de transformá-lo em algo para além do próprio medo. Marginália surge da constatação de que o meu silêncio nunca me protegeu, da convicção de que a dor por si só nada muda. Pessoal e político esse blogue não possui pretensão acadêmica ou midiática. Escrevo porque sei que há mulheres que me leem, só por isso escrevo, talvez só por isso sigo.

Laura Elisa

12 pensamentos sobre “Sobre

  1. Sem dúvida um dos melhores acontecimentos do ano ter conhecido seu blog, a partir da página da ONG Ártemis, que sigo no facebook.
    Quero parabenizar, quero chorar, quero te dar um abraço.
    Procurei seu email pra te escrever.
    Cá está uma mulher negra, mãe, tentando sobreviver na selva do Rio de Janeiro, tentando articular um relacionamento de companheirismo apesar dos machismos cotidianos.
    Parabéns e meu abraço extremamente afetuoso.

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  2. Laura, pouco tempo venho acompanhando seus textos. Tenho pensando muito sobre tudo. E a pouco tempo também converso com amigas sobre minha situações frustadas. Queria muito compartilhar com você e assim obter mais clareza ao assunto porque quero me aprofundar que seguir tudo, quero ter a liberdade, quero me doar ao feminismo. Assim, se puderem deixar seu e-mail para tal conversa Agradeceria muito. E continue com tudo que escreve, toca a alma.

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  3. Queria um jeito de entrar em contato contigo e só achei esse aqui, tomara que veja.
    Sigo seu blog, leio e releio seus texos pra vida. Hoje terminei, espero mto ter forças pra que seja de vez, um relacionamento abusivo… estava desesperada e vim aqui ler novamente algumas de suas publicações pq sei que aqui encontro força.
    Eu queria morrer, mas você e todas essas mulheres que estão na minha vida hoje, me fazem ver que sou mais importante.

    Só queria mesmo que vocé soubesse que além de publicar coisas incríveis, toda essa empatia que a gte vé aqui… vc tb ajuda salvar nossas vidas.

    Obrigada.

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