Uma análise feminista do outubro rosa

Este texto foi escrito e gentilmente cedido à Marginália pela Gabriela Visani, membra da Coletiva Feminista Radical Manas Chicas.
As fotos que ilustram essa postagem foram retiradas do projeto fotográfico The Scar Project, realizado pelo fotógrafo David Jay.

“E muitas de nós nos sentimos frustradas no mês de outubro, que é como se nossa doença estivesse sendo usada para que pessoas consigam lucrar, e isso não está bem.”
Fala de uma mulher com câncer de mama.

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Existem muitos problemas com o outubro rosa e com as campanhas ao redor da fita rosa como a culpabilização das mulheres que morrem por câncer de mama, um reforço da feminilidade, os acordos com empresas para conseguir dinheiro para as pesquisas, dinheiro sendo arrecadado para pesquisas até com a venda de produtos cancerígenos, dinheiro sendo alocado apenas para pesquisas que tragam um produto para tentar “curar” o câncer e pouco dinheiro indo para pesquisas que expliquem o que causa o câncer, uma mensagem sendo passada de que fazer mamografias e ser detectada com câncer cedo é a solução para tudo…

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Esse texto pretende contar a história da fita rosa e problematizar essa campanha. Todas as citações e o argumento central desse texto vieram  do documentário “Pink Ribbon, Inc.”.

História da fita rosa

A fita rosa inicialmente não era rosa, era salmão.
Charlote tinha perdido muitas pessoas de sua família pro câncer, resolveu mandar cinco fitas salmão com um cartão pedindo para que se escrevesse para o NCI (Instituto Nacional do Câncer) demandando uma porcentagem maior de dinheiro para pesquisas de prevenção ao câncer. Algumas empresas (Self magazine e Estee Lauder) ficaram sabendo e resolveram pedir para ela a permissão para usarem sua fita salmão como símbolo da “luta” contra o câncer de mama.

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Ela recusou, disse que a agenda deles não era sobre a vida das mulheres. Essas empresas então chamaram advogados para saber como poderiam usar essa fita, os advogados falaram que precisavam apenas mudar a cor. Então as empresas fizeram uma pesquisa de mercado perguntando para um grupo de mulheres que cor elas achavam mais confortante e não ameaçador – tudo que um diagnostico de câncer de mama não é – e assim chegaram na cor rosa.

Sobre a culpabilização das mulheres que morrem com câncer de mama

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Nas campanhas sobre câncer (e em especial nas de câncer de mama) se usa muitas metáforas ligadas a guerra. É dito para as mulheres que são diagnosticadas com câncer que elas “precisam lutar” e dito para as que depois do tratamento quando foram “curadas” que “elas venceram” e são “sobreviventes”, ONGs e empresas que estão “militando” pela causa dizem que “estão na guerra contra o câncer de mama”.
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Qual é o problema de usar metáforas de guerra? Você não pode falar para as mulheres que estão vivas que elas são “vitoriosas” e “sobreviveram” sem passar a mensagem de que as que não sobreviveram são “perdedoras” e que talvez ela não tenha “lutado” suficiente. Muitas vezes mulheres morrem de câncer de mama mesmo tendo seguido todas as recomendações e feito todos os tratamentos possíveis e essas mulheres não são “perdedoras” e não é que elas não “lutaram”.

Sobre o reforço da feminilidade

Aqui segue a fala de uma mulher que já teve câncer de mama, sobre as campanhas e corridas para arrecadar dinheiro para a “luta” pela “cura” do câncer de mama.
“Eu não quero ser uma estraga prazeres e desencorajar pessoas de correr, eu gosto de exercício e tudo assim, mas eu gostaria que eles pudessem ouvir também de todas as mulheres que passaram por câncer de mama e ressentem o esforço para se fazer “bonito”, “feminino” e “normal”, não é normal, é horrível, tem que ser parado”.

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Nessa logica de que a mulher com câncer tem que ser forte e lutar contra a doença, muitas sentem pressão para continuarem felizes e não demostrar raiva, isso acontece por que se trata de mulheres e há uma enorme pressão para que as mulheres estejam sempre felizes e não demostrem raiva, mesmo se tiverem sido diagnosticadas com câncer.

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Além disso, essa imagem da mulher com câncer alegre, feminina e com um pensamento positivo ajuda as empresas a venderem aqueles produtos que uma quantia minúscula vai para pesquisa de câncer (a pesquisa que essas companhias defendem), afinal mulheres com raiva não são uma boa imagem para vender produtos.

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Pesquisa sobre o câncer de mama e empresas

As pesquisas sobre o câncer de mama são em sua maioria financiadas por empresas. Para melhorarem sua imagem e atrair mais consumidoras mulheres muitas empresas fazem campanhas em que doam parte de suas vendas para pesquisas sobre o câncer de mama, no entanto, o que não fica claro é que os produtos muitas vezes são cancerígenos e é só uma porcentagem pequena das vendas que vai para as pesquisas.
Além disso, o dinheiro vindo das empresas vem com um preço, não é pesquisado o que não interessa essas empresas, não se pesquisa muito sobre possíveis causas para o câncer (afinal isso pode prejudicar a venda de seus produtos cancerígenos) e as pesquisas são feitas com mulheres brancas dos estados unidos e do ocidente europeu (que são as principais consumidoras dos produtos dessas empresas), assim está indo muito dinheiro para estudar como o câncer se desenvolve em apenas uma parte pequena da população mundial.

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O fato de não estar sendo pesquisado o que causa o câncer, não só beneficia as empresas que estão vendendo seus produtos rosas, mas também as empresas farmacêuticas, que conduzem uma boa parte dos estudos, já que é mais vantajoso para eles uma pesquisa pela “cura”, pois é uma pesquisa que levará a um produto. Quando se questiona as fundações e empresas sobre o que estão fazendo em relação ao câncer de mama quase sempre a resposta é uma fala de quantos milhões foram doados pela causa. É uma ideia muito ligada ao capitalismo essa de que para resolver um problema temos que jogar dinheiro. E no caso do câncer de mama essas fundações tem muito pouco a mostrar em termos de resultados, ainda não sabemos ao certo o que causa os diferentes tipos de câncer de mama e o tratamento continua razoavelmente o mesmo já faz décadas, baseando-se no mesmo “corta”, “queima”, “envenena”.

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Já é hoje de começarmos a perguntar da onde vem o dinheiro dessas pesquisas e para que pesquisas estão indo e não simplesmente ficar feliz por ter conseguido algum dinheiro.

A mensagem está convenientemente errada

A mensagem do movimento da fita rosa é “faça o mamograma”, “detecção cedo é a sua melhor proteção”; o que é em si uma mensagem muito problemática.
Detecção de um câncer cedo só funciona para algumas pessoas. Para algumas pessoas detecção cedo significa que elas vão conseguir algum tratamento, para uma doença que de fato põe em risco suas vidas; mas para outras, detecção cedo significa detectar uma coisa que poderia nunca por em risco suas vidas e serão tratados mesmo assim (fazendo eles passarem mal pelo tratamento desnecessário); para outras essa detecção não importa porque o tipo de câncer é tão agressivo que não existe tratamento que o cure, não importa em que momento seja detectado.

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Mas, por que não é explicado para as mulheres o que fazer suas mamografias e procurar detecção cedo garante e o que não garante? E porque essa tem sido a principal mensagem? Essa tem sido a principal mensagem porque as companhias farmacêuticas lucram com mais pessoas sendo diagnosticadas com câncer e porque não é de interesse delas fazer pesquisas sobre o que causa o câncer para que a mensagem a ser passada seja o que as pessoas podem fazer para não ter câncer, em primeiro lugar.

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Eu não estou falando para as mulheres não fazerem mamogramas, estou falando apenas que a mensagem do jeito simplificado que ela está sendo passada é cruel, pois fará com que várias mulheres se culpem e sejam pegas de surpresa com um câncer que já ia as matar de qualquer jeito.

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O que precisamos

Precisamos de pesquisa que não sejam financiadas pelo setor privado; precisamos pesquisa que procurem descobrir o que o câncer é e o que o causa; precisamos que produtos cancerígenos sejam proibidos; precisamos que as mulheres, em especial as diagnosticadas com câncer, tenham liberdade para sentir raiva, tristeza e desespero; precisamos que a mensagem sobre a importância da mamografia seja mais honesta e explique suas limitações; precisamos parar de pensar que essa campanha do outubro rosa e da fita rosa que foi criada por grandes empresas são feministas; precisamos de um outubro lilás, ou salmão, mas definitivamente não rosa. Afinal, o outubro rosa das grandes empresas nunca será o outubro que as mulheres precisam.

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Leia também: Outubro é um mês de combate ao câncer de mama ou de vender maquiagem?

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