Sobre poliamor – parte II (Ou dessa vez apenas sobre amor)

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Hoje foi um dia atípico, acordei menstruada.
Sai cedo de casa, resolvi ir na biblioteca pública e acabei saindo de lá com um livro do Gabriel Garcia Márquez. “Do amor e outros demônios”, pelo momento propício e pela graciosidade das surpresas cotidianas – as quais eu prezo muito – o título acabou me seduzindo de cara. Passei o dia ocupada em mim mesma e nessa sensibilidade que só o tempo da menstruação me traz.
O tempo da menstruação é pra mim a abertura de um canal de comunicação interno, uma longa conversa com meu corpo. Enfim, eu sei que parece loucura. Talvez seja. E foi no meio dela que se passou mais um dia.

Mais no fim do dia, li um texto em Clitóris Livre que me deixou reflexiva sobre relacionamentos, amor, homens, mulheres e toda essa miscelânea que sempre ronda a minha cabeça – mas dessa vez um pouco temperada pela sensibilidade do tempo da menstruação e por feridas antigas minhas que acabaram sendo reabertas recentemente. Estou cuidando delas enquanto saio desse mar de abuso psicológico em que eu estava me afogando. Ao contrário do que muitos podem pensar, toda mulher está suscetível a adentrar nesse ciclo doentio de manipulação e chantagem emocional chamado relacionamento abusivo.

É sempre difícil esse processo do desapego, a gente se pega querendo arrumar mil justificativas pra manter contato, pra não se desvencilhar, enfim, pra não aceitar que acabou. Acabou, e agora o que farei com os versos que escrevi?
O fim parece trágico, mas é pra mim sempre um início ou meio de um novo processo e, modéstia à parte, devo admitir que eu mesma me surpreendo com essa minha capacidade de crescer tanto em tão pouco tempo. Minha visão do que chamo de amor está em constante mudança. E a visão que tenho hoje me leva a crer que não conheço o amor como eu acredito que exista.
Partindo da rasa vivência afetiva que tive até hoje, eu diria que não idealizo o modelo fechado da monogamia como ideal. Acredito num caminho mais difícil de construção conjunta de algo que considere as necessidades afetivas das partes envolvidas. Eu acredito na entrega, acredito no cuidado mútuo e acredito, sobretudo, num estado de ausência do medo. Algo que até hoje não encontrei.

Quando eu falo de cuidado, eu falo sobre se preocupar com como nossas atitudes refletem nos sentimentos da outra parte, principalmente se estamos falando de uma outra parte negra, de uma outra parte mulher.
É extremamente conveniente que o elo socialmente mais fraco e fragilizado afetivamente seja sempre o que mais tem que ceder. Os homens não estão dispostos a nos entender, a nos ouvir, a ceder por nós. Qualquer demanda colocada será lida como controle, como ciúmes, e é obrigação nossa desconstruí-los sozinhas e, de preferência, causando o menor incômodo possível.
O privilégio masculino tem a audácia de nos pedir para ceder mais, tem o egoísmo de nos pedir que não o incomode com nossas inseguranças. Vivemos numa atmosfera de romantização do abuso que não nos beneficia. O domínio masculino está habituado a nos ver sofrer em nome dele e não mais se comove, é considerado normal que nós, a parte feminina, soframos muito mais, e que soframos em nome da manutenção da liberdade masculina.

Quando falo de entrega, falo para além da análise de gênero. O modelo de relacionamento que temos construído e colocado em prática idealiza um distanciamento e um desapego que beira ao descuidado. Afetivamente, acreditamos que ter o mínimo de cuidado com o outro é algo a se envergonhar, ou, dentro do vocabulário da internet, ser trouxa. Ah, esperto é quem não sente nada, não sofre e nem se abala por nada, é quem esquece quem quiser na hora que quiser. Ou seja, esperto é quem não ama, ou quem não se expressa. Sonho com um mundo em que tenhamos a coragem e a nobreza de sermos mais trouxas. Qualquer relacionamento que tentei empreender sempre se mostrou assimétrico nesse sentido, no sentido de que as pessoas estão sempre se prevenindo, sempre pisando em ovos, sempre numa infinita insegurança de se mostrar ao outro, enquanto eu fui a “trouxa” completa.
Por isso revolucionário pra mim seria o afeto, mas não qualquer afeto. O afeto revolucionário implica em humanizar dentro das nossas relações quem é nelas sistematicamente desumanizado, e não continuar reproduzindo descuidado com o outro. Acredito que isso seja a base do amor. No fim entendi que amor pra mim era muito menos sobre monogamia restrita, e muito mais sobre cuidado e entrega.

Resisto em chamar isso de poliamor, de relacionamento aberto ou até mesmo de amor livre; o que encontrei nesses espaços foi apenas aquela mesma coisa superficial – uma suposta liberdade envolta em mais e mais camadas de privilégio masculino. Acredito que independente do nome que se dá ao relacionamento, sendo ele heterossexual, a desconstrução contínua e sistemática dos privilégios masculinos é indispensável ao acontecimento do amor. Por isso minha resistência em dar outro nome a algo que pra mim, independente da conformação que adquira, significa e quer dizer apenas amor.

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Já não estou mais no mesmo dia, o sol bate na minha cama e faz calor aqui dentro. Tenho que fechar essa cortina. Deixo passar despretensiosamente mais uma tarde longe de você. Mais longe do que já estamos – ou sempre estivemos – embora muito eu tenha tentado me aproximar.
Você me perguntou se eu levava algo de bom disso tudo, e eu respondi “gostei das músicas que você me mostrou”. Mas eu estava errada, não foi só isso. Eu descobri mais tarde que levo mais disso tudo. Eu levo meu reencontro com essa força. É uma casabsoluta, e só eu sei como é uma casa louca. Eu levo meu regresso. Minhas mãos sujas do meu sangue. Eu jogo. Eu juro. Eu me levo de volta a mim mesma. Adormeço. Relembro. Eu aqui de novo com esses mesmos olhos rasos d’água. O que eu levo de melhor é o fim. Eu aqui de novo. E a gratidão de estar presente.

Leia também:
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7 pensamentos sobre “Sobre poliamor – parte II (Ou dessa vez apenas sobre amor)

  1. tu é foda!
    não consegui manter nossa conversa por email, como eu gostaria…
    mas sigo admirando demais essa habilidade de colocar em palavras tudo isso que nos atravessa, transforma e, sim, oprime.
    Dom.
    beijos com carinho sincero e abraço apertado

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