É preciso ter coragem de estar sozinha

Reproduzo aqui um texto que pra mim é e foi muito importante. Perdi a conta de quantas vezes procurei e reprocurei esse texto no Facebook, de quantas vezes printei a tela e enviei esse texto pra amigas minhas.

Maria Gabriela Saldanha, obrigada por esse texto.

É preciso ter coragem de estar sozinha também. E sobre isso ninguém nos ensinou. Ninguém vai nos ensinar. Há uma normatividade rígida se impondo sobre a afetividade feminina, mas dessa vez não fala de castração. Simula liberação. Para que ela se efetive, é preciso produzir em massa uma ansiedade quanto ao sexo, um desespero por parceiros, uma incompletude que nos rouba de nosso protagonismo e nos aprisiona – sendo esse o mesmo mecanismo da sensação de insuficiência física produzida pela ditadura estética e da sensação de insuficiência emocional produzida pela cultura romântica. A quem a insuficiência sexual está servindo? A quem o patriarcado serve. Falar disso, embora seja claramente um questionamento sobre até que ponto nossos corpos e sentimentos são realmente e apenas nossos, fatalmente soará como moralismo. É assim que querem que vejamos.

Antes de tudo, devemos admitir que as meninas fazem sexo cada vez mais cedo e que isso reflete um problema grave de gênero, uma vez que não fazem por mero instinto, mas porque há toda uma cultura que prega a obrigatoriedade da vida sexual. Independentemente de a infância ser uma construção histórica, a sua abreviação contemporânea é um interesse mercadológico. Elas fazem sexo para não se sentir socialmente inadequadas. A quantidade de vídeos de revenge porn de adolescentes tomando as redes sociais, a quantidade de letras de música falando de “novinhas” e o investimento pesado da indústria e da mídia na erotização infantil demonstram que há toda uma legislação subjetiva determinando a hipersexualização da mulher desde muito cedo.

Tudo à nossa volta constrange, impele, coage para o sexo. Mostrar-se sexualmente ativa, intensa e frequente é garantia de privilégios. Ora, o patriarcado é sobre sermos coadjuvantes: dos processos políticos e de nossas vidas. À frente, sempre a figura masculina, determinando o nosso manuseio correto. Logo, não só os homens gozam de um conjunto de privilégios, é preciso também “conceder” aparentes benefícios às mulheres, incentivando a competição entre elas, para que elas acreditem que há alguma forma de premiação dentro desse sistema. E as mulheres são “premiadas” segundo diferentes critérios: submissão aos padrões de beleza, ajuste à moral e aos costumes (mulheres relacionáveis), disposição sexual e capacidade de proporcionar prazer ao homem (mulheres consumíveis)…
Na contemporaneidade líquida, os falsos privilégios femininos estão ligados especialmente ao consumo sexual, de modo que as mulheres precisam comprovar que são livres, donas de seus corpos e bem-resolvidas, mantendo uma aura de autonomia. Essa autonomia sexual precisa ser aparente, não pode representar, em hipótese alguma, uma ruptura com o patriarcado, ela é uma ficção de uso, uma licença. A apropriação da homoafetividade feminina como fetiche é um exemplo de como a liberdade sexual feminina é encarada como uma concessão. Essa autonomia também vende o produto feminino com uma garantia de blindagem emocional: a mulher bem resolvida dá menos trabalho, não precisa de tantos cuidados no trato, não se melindra com qualquer gestozinho agressivo, não demanda tanto desgaste na sua administração.

É interessante para o patriarcado que a nossa sexualidade seja estimulante, garantindo o entretenimento em longo prazo ou o descarte imediato, como todo bem de consumo. Quase nos esquecemos de que existimos para nós, quase nos condenamos a bobas da corte. Agora somos máquinas de prazer. Democratizamos e afirmamos, assim, o sexo como mercado: somos todas profissionais de alguma maneira, eis o sonho machista realizado. O que não representa, de modo algum, a problematização da pornografia ou a libertação da mulher em situação de prostituição, ela permanece segregada e violável.

Resta claro como o patriarcado subverte os nossos processos e rouba a cena que jurávamos protagonizar. Quantas outras causas pensamos alavancar e correm esse mesmo risco? Ou já foram sequestradas e ainda não percebemos? Diante de um sistema que corrompe e usurpa até mesmo a idéia de empoderamento por meio de uma sexualidade mais livre em prol do prazer masculino, o que parece definitivamente libertário? Respondo: o triunfo sobre essa ansiedade por parceiros e pela consagração sexual dentro do jogo de falsos privilégios dados à mulher. É no estado de solitude que essa solidão devastadora e insaciável perde a força. É quando tomamos coragem de romper com a obrigatoriedade de um parceiro, com esse desespero por companhia e afirmação sexual que finalmente podemos empregar a nossa energia em atividades diversas, que nos permitam tomar o mundo, que nos apresentem uma perspectiva de igualdade de gênero a respirar fora da guerra dos sexos. Ou o contrário: é quando empregamos a nossa energia em atividades que nos façam tomar o mundo, que nos apresentem uma perspectiva de igualdade de gênero respirando fora da guerra dos sexos, que tomamos coragem de romper com a obrigatoriedade de um parceiro, com esse desespero por companhia.

De qualquer modo, é preciso autoconhecimento. A nossa intimidade sempre foi objeto de disputa e controle, nunca nos pertenceu. Parece improvável que realmente a gente venha a conhecer relações mais saudáveis e justas sem que haja uma retomada e reconhecimento dessa intimidade, para que nunca mais fique ao cálculo dos interesses culturais, sociais e econômicos traçados pela supremacia masculina. Precisamos nos explorar mais, somos um universo desconhecido para nós mesmas. Aprender a ficar só e a ser por inteiro, virando o tabuleiro da manipulação afetiva e sexual, pode ser um passo determinante para nos desintoxicar de séculos viciadas em submissão, competição e aprovação. Se mesmo o nosso protagonismo em algumas questões pode ser uma ilusão de ótica, aprender a estar consigo e a preencher-se de companhias não sexuais (notem como a sororidade é imprescindível), de objetivos que nos obriguem a ir além de nós e que restaurem o óbvio – não somos as nossas emoções, NÓS TEMOS AS NOSSAS EMOÇÕES – podem ser os únicos passos concretos para a descolonização e autodeterminação femininas.

Maria Gabriela Saldanha

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19 pensamentos sobre “É preciso ter coragem de estar sozinha

  1. Muito bom!
    É fundamental a mulher sair desta codependência do homem, se sentir livre do jeito que é, sem ter que agradar padrões,tem que se agradar, mas para isto realmente muito autoconhecimento, e ainda sim cada dia é um dia!
    Mulhreres não precisam de homens, isto não e protocolo, mulheres precisam ser pessoas que produzam e tentem como todo ser humano deseja ser feliz!

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  2. rmaravilhoso o texto .. Realmente nós mulheres sempre fomos manipuladas , e sempre tivemos a cultura do príncipe encantado , hoje tenho o previlegio de estar comigo .. Tenho as minhas emoções e me basto .. Não abro mão da minha liberdade por ninguém , sou feliz assim .

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  3. Desde muito cedo entendi que eu tinha que me desenvolver como gente, ser humano, independente de gênero.. Só assim eliminamos o machismo com que fomos criadas… Liberdade está dentro da cabeça e nunca deixei de fazer algo por “não ficar bem para uma mulher” ou por que ia desagradar alguém. Caráter não tem sexo e não me intimido com esses ideais da sociedade. Sozinha ou acompanhada temos que preservar a nossa individualidade… Não adianta conquistarmos nossos direitos se continuarmos criando nossos filhos com valores diferentes entre os gêneros… O machismo e o feminismo são igualmente preconceituosos e nascem dentro de casa.
    O direito é adquirido, antes de tudo, dentro de todos nós…

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  4. A cobrança realmente é grande, as pessoas vivem querendo me arrumar namorado, minhas amigas vivem preocupadas com a minha solterice, me cobram demais que eu tenho que ter um homem senão eu nao serei nada, ja tive que ser grossa com um tio meu de tanto que ele me infernizava a vida que eu tenho que achar marido, ele estipulou até prazo para isso, até o final do ano obrigatoriamente eu tenho que estar casada, é a regra que ele me impôs e eu me obriguei a ser grossa pq ja estava dmais as cobranças. Eu nao acredito no amor homem/mulher, pra mim tudo isso é uma grande frescura e ninguem pode me obrigar a casar á força. Se um dia eu encontrar alguem que me faça mudar d ideia beleza, se não o mundo nao vai acabar por causa disso, pelo menos o meu mundo nao, ja o mundo das pessoas que me cobram vai desmoronar haha

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    1. As vezes tenho a impressão de que esta suposta liberdade sexual, a qual conclamamos, veio com um preço altíssimo. Ela chegou como uma embalagem que carrega consigo todos os demais preceitos sociais machistas. Junto à possibilidade de se relacionar com vários parceiros veio a exigência de um esteriótipo estético, comportamental e psíquico. Alguns destes esteriótipos, frutos da disseminação e assimilação da pornografia no cotidiano, se entranharam nas relações entre indivíduos, de modo a molda-las…
      O texto é muito interessante em sua totalidade, mas poderia se resumir a um aforisma:
      ” […]é preciso autoconhecimento.
      […]Aprender a ficar só e a ser por inteiro[…]pode ser um passo determinante para nos desintoxicar de séculos viciadas em submissão, competição e aprovação.”
      Mas como diriam as radfem:
      “Você é homem?!, então fica calado”…

      Blog interessante

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  5. Nossa fiquei boqueaberta com esse texto!!!Que li várias vezes em voz alta para mim mesma….. muito bem escrito, objetivo e contemporâneo!!! Será que pagaremos durante tento tempo esse preço de LIBERDADE??? Parabéns Maria Gabriela Saldanha ( autora do texto?).rotertuliano

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