Sobre poliamor

Resolvi reproduzir aqui um post de Facebook que eu fiz a um tempo atrás, mas que até hoje ainda recebe muitos acessos e ainda recebo relatos e comentários sobre ele. Depois que excluí o Facebook se intensificaram pedidos pra que eu disponibilizasse o texto, acabei encontrando o texto em outros portais, inclusive editado e um pouco diferente do que eu escrevi  e por isso resolvi reproduzi-lo aqui fielmente.


Eu desafio sinceramente vocês a me convencer que essa história de poliamor me contempla.

Eu desafio vocês a convidarem para desconstruir a monogamia uma mulher que nunca teve direito a ela.

Eu desafio vocês a irem falar sobre não-monogamia para uma mulher negra, pra uma mulher gorda, para uma mulher trans, pra uma mulher com deficiência.

Eu desafio vocês a ir falar pra uma mulher que está presa a um relacionamento abusivo, que é traída pelo marido, mas que não pode sair de casa por causa dos filhos, por que depende economicamente do marido, eu desafio vocês a ir lá trocar uma ideia com ela sobre flexibilização de fidelidade, sobre amor livre.

Eu desafio vocês a ir falar para uma travesti periférica que se prostitui que ela tem que “desconstruir o amor romântico”.

Eu desafio vocês a convencer uma mulher que é estuprada sistematicamente pelo marido dentro de casa, que contraiu uma DST desse marido revolucionário sexualmente livre que “Ninguém devia se importar com quem o parceiro faz sexo”.

É muito fácil de dentro da sua bolha branca, magra, com acesso à informação e economicamente privilegiada vir pregar uma não-monogamia branca rosada e com sardas, porque é assim que é esse rolê e vocês sabem, mas nem ligam.

Vocês não ligam se a não-padrão é a que vai estar sempre sozinha na sua mesa de bar cheio de casalzinho. Vocês não ligam se a gente sobra e sempre sobrará nessa ciranda festiva do mais-amor-por-favor. Vocês não se importam.

Esse discurso poliamoroso não deixa de reproduzir dentro dele todas as opressões estruturais que já existem. Quem já não é vista como socialmente aceitável para uma monogamia, será também preterida numa não-monogamia. Com a diferença de que agora a convenceram de que isso é normal, de que ela não pode fazer cobranças, que ela não pode estar sofrendo o que sofre porque ela concordou com esse tipo de relação. Daí eu te pergunto o que tem de revolucionário num homem “desconstruir a monogamia” se isso pra ele já é e sempre foi um direito? Para o homem trair é normal. O homem com mais de uma mulher é normal. A mulher é obrigada a aceitar porque “homem é assim mesmo”.

E, no final, o que isso tudo acaba gerando é uma justificativa pra esse homem fazer o que sempre fez e agora se apoiar num discurso super engajado de paz, amor e liberdade. Os homens vão se apoiar nesse discurso para continuar usando mulheres como eles sempre bem fizeram, do mesmo jeito que subvertem o sentido da liberdade sexual da mulher.

A verdade é que se você não é padrão, vão passar uma vida te tratando como lixo. Vão fazer com que você custe a, um dia talvez, acreditar que é digna do amor de alguém. Vão roubar para sempre sua autoestima, vocês vai ter que reconstruí-la todo dia. Diariamente, quando você acordar e se olhar no espelho vai ter que se convencer que você vale a pena, mesmo que tudo, o tempo todo, te diga o contrário.

Vão te roubar a possibilidade de construir relacionamentos saudáveis e depois ainda vão tentar te culpar pela sua insegurança. Vão reduzir tudo que te provocaram numa palavra simples e curta: ciúmes. E vão deixar toda a responsabilidade de lidar com esses “ciúmes” nas suas costas. E não esqueça que ciúmes de mulher será sempre um exagero, sempre uma paranoia, uma divagação.

Quer viver uma relação não monogâmica? Parabéns! Nossa, um minuto de silêncio pra você! Só não venha me dizer “Ninguém devia se importar com quem o parceiro faz sexo”. Não venha falar de você pra mim, eu não sou você. Quem pode querer não se importar? Quem tem esse privilégio? Que mulher tem esse privilégio?

Vocês não interseccionam, vocês só falam do umbigo de vocês e banalizam o que as outras sentem e ainda vem me falar de sororidade. Acontece que eu tô cansada de falar de vocês, de fazer um feminismo branco, um feminismo que universaliza a condição de mulher tomando como base a mulher branca.

A demonstração pública de afeto será do padrão, o relacionamento abusivo será da preta.

A monogamia e a não-monogamia serão do padrão,o amor escondido será da preta.

Sem mais.

Leia também: https://pt-br.facebook.com/Verinharedsoviet/posts/297146420455856

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12 pensamentos sobre “Sobre poliamor

  1. Laura, perfeito. Tudo o que queria desabafar. O poliamor existe apenas para as não padrões, eu estou passando por isso, não sou padrão e por isso ninguém tem o prazer de assumir, mas quando estão junto de mim me promete amor, mas é tudo mentira.
    Faz 9 anos que não sei o que é ter um relacionamento sério porque não sou padrão, observei isso a pouco tempo, conversando com um amiga que passa pela mesma situação, que digamos tem o meu estilo “beleza”. E tem mais, os relacionamentos os quais me envolvido nesses 9 anos sem ser serios, são aqueles da tal “amizade colorida” o qual pode acontecer a hora que quiser sem cobranças, mas eu oprimo meus sentimentos porque tem um que certos 9 anos que estamos nisso e até essa semana veio me dizer que nenhum tipo de sentimento poderia acontecer. E mais, para a sociedade, mulher que tem essa tal de amizade colorida não podem ser assumidas por serem “fáceis”. Agora minha frustração maior que não sou padrão e ainda sou a ” fácil ” estou a turbilhão de sentimentos e você está me ajudando com seus textos. Só tenho agradecer.

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    1. Minha querida, fico feliz que possa ajudar, passo pelo mesmo :/ Já cheguei à conclusão que pra mim enquanto mulher negra não há nada de revolucionário em “desconstruir” quando essa desconstrução é sofrida pra mim e é em nome da liberdade de homens. Força pra nós, beijo grande!

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  2. Só um comentário: desconstruir o amor romântico não é necessariamente estabelecer uma relação poliamorosa, ou aberta, ou seja lá o que for. O cerne do amor romântico, do meu ponto de vista, é confundir relação afetiva com delírio de posse, e mecanismo de projeção com amor. Qualquer configuração está sujeita a esse tipo de coisa, seja monogâmica, aberta, poliamorosa…e uma relação monogâmica pode, perfeitamente, não reiterar os ideais do amor romântico (aqui acho que exemplifica bem: https://www.youtube.com/watch?v=gjV5zaGd0gA)

    No mais, muito interessante. Percebo muitas pessoas confundindo as coisas e utilizando a idéia do poliamor pra justificar superficialidade e liquidez de relação afetiva. Também me incomoda muito absolutamente qualquer imposição de regra, como se a pessoa que não quisesse fazer parte de um relacionamento não-monogâmico fosse de alguma forma menos evoluída. Uma relação consiste basicamente em sermos honestos com relação as nossas fraquezas, lidar com as subjetividades de cada pessoa envolvida na relação (seja uma ou ‘n’ pessoas). Não existe um modelo que sirva pra todo mundo, QUALQUER modelo imposto a relacionamento é ruim. De que adianta trocar o ideal do amor romântico por um outro ideal impositivo?

    E digo isso como uma pessoa que não tem uma relação estritamente monogâmica. Pra mim e pro meu namorado funcionou desse jeito, foi uma relação construída de comum acordo e muitas vezes foi necessário discutir nossas inseguranças, nossas necessidades afetivas, sexuais, e por aí vai. Meu relacionamento funciona não por ser aberto, mas pq há muito diálogo e muita honestidade de ambas as partes.

    A monogamia compulsória pode até ser uma estrutura basicamente heteronormativa, e algo usado pra sustentar essa cultura, mas não é impondo um novo modelo de relação como ideal pra todo mundo que vai se descontruir a heteronormatividade. Vai emergir um ideal poliamoroso basicamente heteronormativo rs (acho que a melhor coisa que eu li a respeito de relacionamento, e também recomendo caso não tenha lido, foi da Stoya: http://www.vice.com/pt_br/read/stoya-fala-sobre-as-armadilhas-da-heteronormatividade-e-da-monogamia)

    Abraços e parabéns pelo momento de reflexão 🙂

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  3. Obrigada. Voce me fez chorar, li minha historia em cada linha.
    Durante esse período de “amor livre” (que de amor não tinha nada) e machuquei tanto por dentro, e minha auto estima ficou tao no lixo que por muito tempo acreditei não ser digna de amor. A ùnica coisa que um homem poderia querer de mim é sexo fácil, e nessa me dei pra tantos, e sugaram toda a minha energia. Quando encontrei uma pessoa e me apaixonei, tive muitas dificuldades no inicio pra aceitar e entender o amor dessa pessoa por mim. Uma insegurança tremenda. Na minha cabeça, essa pessoa encontraria outra que estivesse no “padrão” e logo me jogaria fora. Demorei muito pra me abrir, e estou nesse processo ainda de reconstrucao da minha auto estima.
    O que mais vejo é macho branco pregando amor livre aos quatro cantos e nos fazendo acreditar que nosso desejo por uma conexao mais intensa é “carência”, que nossa insegurança é “ciuminho” e que os abusos que sofremos são “liberdade sexual”.

    Mais uma vez obrigada.

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  4. Eu acho que a maioria das pessoas que vêem o poliamor dessa forma estrita teve varias más experiências com traição ~falta de amor de fato~ e ausência de uma pessoas que se importe realmente. Geralmente por um homem babaca. Eu já fui um, estou em processo pra deixar de ser. Mas acho que o texto realmente fala de uma realidade, uma que já passei e ainda passo. Mas não concordo em maior parte com ele. Tenho desejo de conversar com alguem sobre isso, é estimulante para mim. Interessados entrem em contato :3 bjz

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