Narrativas do silêncio 

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Antropologia da face gloriosa, Arthur Omar

Por vezes posso sentir o interior da minha boca do tamanho da minha cabeça inteira. Ou o peito também, posso senti-lo grande, maior que eu imaginava.

Estou convicta de que a loucura é uma sensibilidade. Conviver com a ilusão de que passa, passa, está a passar. Mas quando se volta o olhar, ainda está lá.

Ainda há de existir um tempo em que se possa ouvir um poema recitado em sotaque português. “Escute bem, isso é um poema, não vai passar, não vai melhorar, isso é um poema.” Mas ainda se pode por vezes fixar o olhar em qualquer coisa, e isso ainda é uma possibilidade que existe. Porque ainda existe em meio à tudo uma possibilidade de concentração.

Por vezes posso sentir o interior da minha boca do tamanho da minha cabeça inteira. Ou os dentes, a língua, grandemente um interior, parecendo maior que o real. Uma pretensão lírica. E me deito. E penso.

Como pode também ser ridículo o que se tem a pretensão de nomear loucura.

Inação diante da morte de mulheres negras é perpetuar o genocídio da população negra

Texto da Monique França Freixo, estudante de Medicina da UERJ, membra do Coletivo de Estudantes Negros e Negras da Medicina – NegreX, e Coordenadora de Políticas de Saúde da Direção Executiva Nacional de Estudantes de Medicina – DENEM

Imagens : Primeira Marcha Das Mulheres Negras no Brasil

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Esse é o mapa da violência de 2015 com os dados de homicídio contra mulher com recorte de raça.

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Essa morte aqui mensurada é física. E penso de total importância falar sobre ela. Questionar onde, como, por que ela ocorre. Sem perder de vista que precisamos depois dessas discussões saber o que será feito. Inação política perante aos números é uma forma de ideológica de manter a ordem. É uma forma racista de perpetuar um processo de genocídio da população negra.

Porque genocídio não é só aquilo que você viu no filme Hotel Huanda na quinta série. Genocídio também é o que se fazia na década de 80, quando era propagada a prática de histerectomia das mulheres negras sem sua permissão. Genocídio é não enfrentar essa falsa sociedade laica, onde a mulher que mais morrer pelo aborto são negras.
Genocídio é esse mapa.

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Mas eu não quero só falar dessa morte que é quantificada em valas rasas ou corpos pra faculdades de medicina. Quero falar de uma morte psicológica que é banalizada. Um assassinato silenciado. Uma morte silenciosa.

Mulheres negras (ou pra você entender melhor: mulatas, moreninhas, pardas…) muitas vezes são objetos de desejo dos homens (e mulheres também). Reafirmo a palavra objeto com intuito de deixar evidente que são como objetos o desejo.

— Objetos a serem experimentados (“Nunca peguei uma moreninha. Como deve ser?” “Como deve ser o sexo de uma negra?”);
— Objetos a serem reajustados (“Por que não alisa esse cabelo?” “Por que você nfaz cirurgia nesse nariz?” “Como você não tem bundão?”)
— Objetos a serem peça cultural de exposição
(“cadê seu samba no pé? E o funk?” “Como assim você não tem vozeirão?” “Canta Cartola pra gente?”)
— Objetos de aprendizado
(“como é ser negra?” )

Objetos que como tais não podem sofrer nenhum tipo de dor com tudo isso. Devem ser subserviente e pedagógicos com seus próximos diante de todas as chagas que se abrem. E sem nenhuma proposta terapêutica cutucam as chagas e querem nossa paciência, nossa neutralidade aos sentimentos para ensinar aos outros.

Penso que cabe entender um dos porquês a população negra é objetificada. Ela sofre com isso porque a forma de se aceitar aquilo que é marginalizado é dando o tom de objeto que pode ser consumido, da mesma forma que descartado. Entender como pessoas, como seres humanos o negro é destituir privilégios, é aceitar a beleza negra, é reconhecer que temos sentimentos, é se indignar diariamente com a história, é saber que a África não é só Guerra ou a Savana.

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Mas voltando para a questão do assassinato silencioso (ou gritante nas mentes, nas noites chorosas de cada uma) que também acontecem com mulheres negras, ele não é debatido, nem conversado nas rodas de feminismo, ou ainda entre nossas mães, tias, primas. Se ele é tão latente por que não falar? Por que? Por que as mulheres negras nesses espaços de feminismo não se reconhecem na pauta de liberdade sexual? Será por que ela sempre foi a estuprada pelo senhor de engenho? Ou por que ela é a  estuprada pelo boy que diz que ‘aprendi muito com você, mas um compromisso com você não dá’?

Usei a palavra estupro  intencionalmente, quero dar outros sentidos e explico. Porque isso de ser usada, mata também. Mata e não deveria ser banalizado. Não deveria ser diminuído. Deveria estar no mapa da violência de 2015 de homicídio contra mulher. Se você acha esse gráfico absurdo, é que você não sabe que ele ainda pode ser subnotificado.

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Esse lance de que devemos ser independentes, buscar nossa felicidade sozinhas. É muito lindo e maravilhoso quando existe essa escolha individual. Mas quando essa mulher quer buscar uma vida a dois (já falo da vida a três, quatro, cinco) o que existe pra ela é como se a relação fosse um estágio para o cara (a cara), no qual ele aprende, sabe reproduzir um discurso, porém não há compromisso com seus sentimentos (porque ela é um objeto) e seu preterimento é factual. E quando ela decide encarar um relacionamento “aberto” é sabido que seu espaço ali é secundário, e piora mais ainda quando se trata de uma relação inter-racial quando a escolha da mulher branca é sempre em primeiro lugar e mais uma vez lhe resta o preterimento (porque a mulher negra é forte, vai superar).

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Mulheres, principalmente negras, compartilhem suas histórias com suas amigas negras; quando possível busque ajuda terapêutica (se bem que as vezes isso seja pior, porque não temos pessoas formadas para lidar com isso, nem muito menos temos SUS que dê esse suporte ou dinheiro para pagar… ); falem sobre essa dor que adoece e mata, mas respeite seu tempo, não se cobre demais; você não é a única nessa história, não é culpa sua, não sinta-se envergonhada por isso; chore o tempo que for preciso, mas se erga (e você irá se erguer) porque somos a resistência viva.
Somos o orgulho de nossas irmãs, somos a esperança de nossas crianças, sejamos o AFROntamento nessa sociedade racista.

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Em tempo: Quando uma mulher chega pedindo ajuda alguém (amiga, médico, enfermeira — psicólogo?) muitas vezes seus sofrimentos são reduzidos a histeria (termo em desuso), drama, falta de auto-cuidado. E quando isso se remete a mulher negra o resultado é bem pior. Pior porque essa mulher negra é forte, guerreira, não sente dor – nem física, nem psicológica.

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Vou tentar explicitar: Mulher, negra, jovem em depressão que resiste com seu cabelo, cor, nariz, curvas (ou não curvas) e não tem um companheiro. Sendo que não ter um companheiro uma queixa para seu sofrimento. Uma das respostas que essa mulher ouve é que se ela tivesse um cabelo arrumado, ou nem tanto beiço, ou um nariz mais fininho, ou.. Ou.. Ou.. Sua possibilidade de ter alguém seria maior. Entende isso?

Querem enterrar nossa cor, nossos traços, nossa história, nos enterrar. Mas somos sementes.

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Link para o texto na Carta Maior
Link para o post oficial no Facebook

E como você eu sei, quer dizer, eu acho que sei

Eu gosto de cheirar minhas próprias mãos
Antes ou depois de qualquer coisa
Na verdade eu gosto dos cheiros, e eu gosto das mãos
As mãos parecem a entrada e a saída original de qualquer coisa
Uma chave da procura pelos instrumentos dentro da angústia são as mãos
E os cheiros são o retorno
Os cheiros são ferramentas que encenam a passagem
E o conhecimento
Quando eu chego em casa gosto de acender um incenso que me faça lembrar de ontem
Os cheiros são o conhecimento em forma volátil
E eu não te conheço
Nos fizemos distantes, incomunicáveis
E assim deve ser

Eu gosto de mãos, a primeira coisa que reparo num homem são as mãos, numa mulher são os olhos
Quando eu saio de casa cedo dentro de um ônibus qualquer eu gosto de sentir que há algo de novo, que há um novo dia
Sempre vai haver um novo dia para ouvir Chico César ou Gilberto Gil
Enquanto nos fizermos incomunicáveis, assim deverá ser
Sou uma mulher que um dia já acreditou em felicidade, e sem a menor pretensão em ser literária
Eu nunca quis mesmo saber do lirismo
Quando o tempo vem e me coloca de novo frente a frente com a crueldade de tudo,
Nada mais me enlouquece, mas você
Você ainda me enlouquece

Eu acendo o cigarro de palha no incenso como quase ninguém
E eu então enlouqueço
Eu enlouqueço na doçura dos meses vagarosos
E na lentidão do tempo
Imagino como seria te amar
Teria a loucura do meu sangue no seu rosto
E embora nos façamos incomunicáveis – e assim deve ser
Eu ainda acredito em quando canto
Eu ainda acredito que quando canto você seja capaz de me ouvir.

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Aquarela Rabiscos da Carolzinha

Uma análise feminista do outubro rosa

Este texto foi escrito e gentilmente cedido à Marginália pela Gabriela Visani, membra da Coletiva Feminista Radical Manas Chicas.
As fotos que ilustram essa postagem foram retiradas do projeto fotográfico The Scar Project, realizado pelo fotógrafo David Jay.

“E muitas de nós nos sentimos frustradas no mês de outubro, que é como se nossa doença estivesse sendo usada para que pessoas consigam lucrar, e isso não está bem.”
Fala de uma mulher com câncer de mama.

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Existem muitos problemas com o outubro rosa e com as campanhas ao redor da fita rosa como a culpabilização das mulheres que morrem por câncer de mama, um reforço da feminilidade, os acordos com empresas para conseguir dinheiro para as pesquisas, dinheiro sendo arrecadado para pesquisas até com a venda de produtos cancerígenos, dinheiro sendo alocado apenas para pesquisas que tragam um produto para tentar “curar” o câncer e pouco dinheiro indo para pesquisas que expliquem o que causa o câncer, uma mensagem sendo passada de que fazer mamografias e ser detectada com câncer cedo é a solução para tudo…

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Esse texto pretende contar a história da fita rosa e problematizar essa campanha. Todas as citações e o argumento central desse texto vieram  do documentário “Pink Ribbon, Inc.”.

História da fita rosa

A fita rosa inicialmente não era rosa, era salmão.
Charlote tinha perdido muitas pessoas de sua família pro câncer, resolveu mandar cinco fitas salmão com um cartão pedindo para que se escrevesse para o NCI (Instituto Nacional do Câncer) demandando uma porcentagem maior de dinheiro para pesquisas de prevenção ao câncer. Algumas empresas (Self magazine e Estee Lauder) ficaram sabendo e resolveram pedir para ela a permissão para usarem sua fita salmão como símbolo da “luta” contra o câncer de mama.

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Ela recusou, disse que a agenda deles não era sobre a vida das mulheres. Essas empresas então chamaram advogados para saber como poderiam usar essa fita, os advogados falaram que precisavam apenas mudar a cor. Então as empresas fizeram uma pesquisa de mercado perguntando para um grupo de mulheres que cor elas achavam mais confortante e não ameaçador – tudo que um diagnostico de câncer de mama não é – e assim chegaram na cor rosa.

Sobre a culpabilização das mulheres que morrem com câncer de mama

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Nas campanhas sobre câncer (e em especial nas de câncer de mama) se usa muitas metáforas ligadas a guerra. É dito para as mulheres que são diagnosticadas com câncer que elas “precisam lutar” e dito para as que depois do tratamento quando foram “curadas” que “elas venceram” e são “sobreviventes”, ONGs e empresas que estão “militando” pela causa dizem que “estão na guerra contra o câncer de mama”.
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Qual é o problema de usar metáforas de guerra? Você não pode falar para as mulheres que estão vivas que elas são “vitoriosas” e “sobreviveram” sem passar a mensagem de que as que não sobreviveram são “perdedoras” e que talvez ela não tenha “lutado” suficiente. Muitas vezes mulheres morrem de câncer de mama mesmo tendo seguido todas as recomendações e feito todos os tratamentos possíveis e essas mulheres não são “perdedoras” e não é que elas não “lutaram”.

Sobre o reforço da feminilidade

Aqui segue a fala de uma mulher que já teve câncer de mama, sobre as campanhas e corridas para arrecadar dinheiro para a “luta” pela “cura” do câncer de mama.
“Eu não quero ser uma estraga prazeres e desencorajar pessoas de correr, eu gosto de exercício e tudo assim, mas eu gostaria que eles pudessem ouvir também de todas as mulheres que passaram por câncer de mama e ressentem o esforço para se fazer “bonito”, “feminino” e “normal”, não é normal, é horrível, tem que ser parado”.

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Nessa logica de que a mulher com câncer tem que ser forte e lutar contra a doença, muitas sentem pressão para continuarem felizes e não demostrar raiva, isso acontece por que se trata de mulheres e há uma enorme pressão para que as mulheres estejam sempre felizes e não demostrem raiva, mesmo se tiverem sido diagnosticadas com câncer.

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Além disso, essa imagem da mulher com câncer alegre, feminina e com um pensamento positivo ajuda as empresas a venderem aqueles produtos que uma quantia minúscula vai para pesquisa de câncer (a pesquisa que essas companhias defendem), afinal mulheres com raiva não são uma boa imagem para vender produtos.

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Pesquisa sobre o câncer de mama e empresas

As pesquisas sobre o câncer de mama são em sua maioria financiadas por empresas. Para melhorarem sua imagem e atrair mais consumidoras mulheres muitas empresas fazem campanhas em que doam parte de suas vendas para pesquisas sobre o câncer de mama, no entanto, o que não fica claro é que os produtos muitas vezes são cancerígenos e é só uma porcentagem pequena das vendas que vai para as pesquisas.
Além disso, o dinheiro vindo das empresas vem com um preço, não é pesquisado o que não interessa essas empresas, não se pesquisa muito sobre possíveis causas para o câncer (afinal isso pode prejudicar a venda de seus produtos cancerígenos) e as pesquisas são feitas com mulheres brancas dos estados unidos e do ocidente europeu (que são as principais consumidoras dos produtos dessas empresas), assim está indo muito dinheiro para estudar como o câncer se desenvolve em apenas uma parte pequena da população mundial.

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O fato de não estar sendo pesquisado o que causa o câncer, não só beneficia as empresas que estão vendendo seus produtos rosas, mas também as empresas farmacêuticas, que conduzem uma boa parte dos estudos, já que é mais vantajoso para eles uma pesquisa pela “cura”, pois é uma pesquisa que levará a um produto. Quando se questiona as fundações e empresas sobre o que estão fazendo em relação ao câncer de mama quase sempre a resposta é uma fala de quantos milhões foram doados pela causa. É uma ideia muito ligada ao capitalismo essa de que para resolver um problema temos que jogar dinheiro. E no caso do câncer de mama essas fundações tem muito pouco a mostrar em termos de resultados, ainda não sabemos ao certo o que causa os diferentes tipos de câncer de mama e o tratamento continua razoavelmente o mesmo já faz décadas, baseando-se no mesmo “corta”, “queima”, “envenena”.

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Já é hoje de começarmos a perguntar da onde vem o dinheiro dessas pesquisas e para que pesquisas estão indo e não simplesmente ficar feliz por ter conseguido algum dinheiro.

A mensagem está convenientemente errada

A mensagem do movimento da fita rosa é “faça o mamograma”, “detecção cedo é a sua melhor proteção”; o que é em si uma mensagem muito problemática.
Detecção de um câncer cedo só funciona para algumas pessoas. Para algumas pessoas detecção cedo significa que elas vão conseguir algum tratamento, para uma doença que de fato põe em risco suas vidas; mas para outras, detecção cedo significa detectar uma coisa que poderia nunca por em risco suas vidas e serão tratados mesmo assim (fazendo eles passarem mal pelo tratamento desnecessário); para outras essa detecção não importa porque o tipo de câncer é tão agressivo que não existe tratamento que o cure, não importa em que momento seja detectado.

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Mas, por que não é explicado para as mulheres o que fazer suas mamografias e procurar detecção cedo garante e o que não garante? E porque essa tem sido a principal mensagem? Essa tem sido a principal mensagem porque as companhias farmacêuticas lucram com mais pessoas sendo diagnosticadas com câncer e porque não é de interesse delas fazer pesquisas sobre o que causa o câncer para que a mensagem a ser passada seja o que as pessoas podem fazer para não ter câncer, em primeiro lugar.

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Eu não estou falando para as mulheres não fazerem mamogramas, estou falando apenas que a mensagem do jeito simplificado que ela está sendo passada é cruel, pois fará com que várias mulheres se culpem e sejam pegas de surpresa com um câncer que já ia as matar de qualquer jeito.

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O que precisamos

Precisamos de pesquisa que não sejam financiadas pelo setor privado; precisamos pesquisa que procurem descobrir o que o câncer é e o que o causa; precisamos que produtos cancerígenos sejam proibidos; precisamos que as mulheres, em especial as diagnosticadas com câncer, tenham liberdade para sentir raiva, tristeza e desespero; precisamos que a mensagem sobre a importância da mamografia seja mais honesta e explique suas limitações; precisamos parar de pensar que essa campanha do outubro rosa e da fita rosa que foi criada por grandes empresas são feministas; precisamos de um outubro lilás, ou salmão, mas definitivamente não rosa. Afinal, o outubro rosa das grandes empresas nunca será o outubro que as mulheres precisam.

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Leia também: Outubro é um mês de combate ao câncer de mama ou de vender maquiagem?

Sobre poliamor – parte II (Ou dessa vez apenas sobre amor)

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Hoje foi um dia atípico, acordei menstruada.
Sai cedo de casa, resolvi ir na biblioteca pública e acabei saindo de lá com um livro do Gabriel Garcia Márquez. “Do amor e outros demônios”, pelo momento propício e pela graciosidade das surpresas cotidianas – as quais eu prezo muito – o título acabou me seduzindo de cara. Passei o dia ocupada em mim mesma e nessa sensibilidade que só o tempo da menstruação me traz.
O tempo da menstruação é pra mim a abertura de um canal de comunicação interno, uma longa conversa com meu corpo. Enfim, eu sei que parece loucura. Talvez seja. E foi no meio dela que se passou mais um dia.

Mais no fim do dia, li um texto em Clitóris Livre que me deixou reflexiva sobre relacionamentos, amor, homens, mulheres e toda essa miscelânea que sempre ronda a minha cabeça – mas dessa vez um pouco temperada pela sensibilidade do tempo da menstruação e por feridas antigas minhas que acabaram sendo reabertas recentemente. Estou cuidando delas enquanto saio desse mar de abuso psicológico em que eu estava me afogando. Ao contrário do que muitos podem pensar, toda mulher está suscetível a adentrar nesse ciclo doentio de manipulação e chantagem emocional chamado relacionamento abusivo.

É sempre difícil esse processo do desapego, a gente se pega querendo arrumar mil justificativas pra manter contato, pra não se desvencilhar, enfim, pra não aceitar que acabou. Acabou, e agora o que farei com os versos que escrevi?
O fim parece trágico, mas é pra mim sempre um início ou meio de um novo processo e, modéstia à parte, devo admitir que eu mesma me surpreendo com essa minha capacidade de crescer tanto em tão pouco tempo. Minha visão do que chamo de amor está em constante mudança. E a visão que tenho hoje me leva a crer que não conheço o amor como eu acredito que exista.
Partindo da rasa vivência afetiva que tive até hoje, eu diria que não idealizo o modelo fechado da monogamia como ideal. Acredito num caminho mais difícil de construção conjunta de algo que considere as necessidades afetivas das partes envolvidas. Eu acredito na entrega, acredito no cuidado mútuo e acredito, sobretudo, num estado de ausência do medo. Algo que até hoje não encontrei.

Quando eu falo de cuidado, eu falo sobre se preocupar com como nossas atitudes refletem nos sentimentos da outra parte, principalmente se estamos falando de uma outra parte negra, de uma outra parte mulher.
É extremamente conveniente que o elo socialmente mais fraco e fragilizado afetivamente seja sempre o que mais tem que ceder. Os homens não estão dispostos a nos entender, a nos ouvir, a ceder por nós. Qualquer demanda colocada será lida como controle, como ciúmes, e é obrigação nossa desconstruí-los sozinhas e, de preferência, causando o menor incômodo possível.
O privilégio masculino tem a audácia de nos pedir para ceder mais, tem o egoísmo de nos pedir que não o incomode com nossas inseguranças. Vivemos numa atmosfera de romantização do abuso que não nos beneficia. O domínio masculino está habituado a nos ver sofrer em nome dele e não mais se comove, é considerado normal que nós, a parte feminina, soframos muito mais, e que soframos em nome da manutenção da liberdade masculina.

Quando falo de entrega, falo para além da análise de gênero. O modelo de relacionamento que temos construído e colocado em prática idealiza um distanciamento e um desapego que beira ao descuidado. Afetivamente, acreditamos que ter o mínimo de cuidado com o outro é algo a se envergonhar, ou, dentro do vocabulário da internet, ser trouxa. Ah, esperto é quem não sente nada, não sofre e nem se abala por nada, é quem esquece quem quiser na hora que quiser. Ou seja, esperto é quem não ama, ou quem não se expressa. Sonho com um mundo em que tenhamos a coragem e a nobreza de sermos mais trouxas. Qualquer relacionamento que tentei empreender sempre se mostrou assimétrico nesse sentido, no sentido de que as pessoas estão sempre se prevenindo, sempre pisando em ovos, sempre numa infinita insegurança de se mostrar ao outro, enquanto eu fui a “trouxa” completa.
Por isso revolucionário pra mim seria o afeto, mas não qualquer afeto. O afeto revolucionário implica em humanizar dentro das nossas relações quem é nelas sistematicamente desumanizado, e não continuar reproduzindo descuidado com o outro. Acredito que isso seja a base do amor. No fim entendi que amor pra mim era muito menos sobre monogamia restrita, e muito mais sobre cuidado e entrega.

Resisto em chamar isso de poliamor, de relacionamento aberto ou até mesmo de amor livre; o que encontrei nesses espaços foi apenas aquela mesma coisa superficial – uma suposta liberdade envolta em mais e mais camadas de privilégio masculino. Acredito que independente do nome que se dá ao relacionamento, sendo ele heterossexual, a desconstrução contínua e sistemática dos privilégios masculinos é indispensável ao acontecimento do amor. Por isso minha resistência em dar outro nome a algo que pra mim, independente da conformação que adquira, significa e quer dizer apenas amor.

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Já não estou mais no mesmo dia, o sol bate na minha cama e faz calor aqui dentro. Tenho que fechar essa cortina. Deixo passar despretensiosamente mais uma tarde longe de você. Mais longe do que já estamos – ou sempre estivemos – embora muito eu tenha tentado me aproximar.
Você me perguntou se eu levava algo de bom disso tudo, e eu respondi “gostei das músicas que você me mostrou”. Mas eu estava errada, não foi só isso. Eu descobri mais tarde que levo mais disso tudo. Eu levo meu reencontro com essa força. É uma casabsoluta, e só eu sei como é uma casa louca. Eu levo meu regresso. Minhas mãos sujas do meu sangue. Eu jogo. Eu juro. Eu me levo de volta a mim mesma. Adormeço. Relembro. Eu aqui de novo com esses mesmos olhos rasos d’água. O que eu levo de melhor é o fim. Eu aqui de novo. E a gratidão de estar presente.

Leia também:
Sobre poliamor
Sobre aquela mesma coisa disfarçada de amor livre
A geração de pessoas que se sabotam emocionalmente

É preciso ter coragem de estar sozinha

Reproduzo aqui um texto que pra mim é e foi muito importante. Perdi a conta de quantas vezes procurei e reprocurei esse texto no Facebook, de quantas vezes printei a tela e enviei esse texto pra amigas minhas.

Maria Gabriela Saldanha, obrigada por esse texto.

É preciso ter coragem de estar sozinha também. E sobre isso ninguém nos ensinou. Ninguém vai nos ensinar. Há uma normatividade rígida se impondo sobre a afetividade feminina, mas dessa vez não fala de castração. Simula liberação. Para que ela se efetive, é preciso produzir em massa uma ansiedade quanto ao sexo, um desespero por parceiros, uma incompletude que nos rouba de nosso protagonismo e nos aprisiona – sendo esse o mesmo mecanismo da sensação de insuficiência física produzida pela ditadura estética e da sensação de insuficiência emocional produzida pela cultura romântica. A quem a insuficiência sexual está servindo? A quem o patriarcado serve. Falar disso, embora seja claramente um questionamento sobre até que ponto nossos corpos e sentimentos são realmente e apenas nossos, fatalmente soará como moralismo. É assim que querem que vejamos.

Antes de tudo, devemos admitir que as meninas fazem sexo cada vez mais cedo e que isso reflete um problema grave de gênero, uma vez que não fazem por mero instinto, mas porque há toda uma cultura que prega a obrigatoriedade da vida sexual. Independentemente de a infância ser uma construção histórica, a sua abreviação contemporânea é um interesse mercadológico. Elas fazem sexo para não se sentir socialmente inadequadas. A quantidade de vídeos de revenge porn de adolescentes tomando as redes sociais, a quantidade de letras de música falando de “novinhas” e o investimento pesado da indústria e da mídia na erotização infantil demonstram que há toda uma legislação subjetiva determinando a hipersexualização da mulher desde muito cedo.

Tudo à nossa volta constrange, impele, coage para o sexo. Mostrar-se sexualmente ativa, intensa e frequente é garantia de privilégios. Ora, o patriarcado é sobre sermos coadjuvantes: dos processos políticos e de nossas vidas. À frente, sempre a figura masculina, determinando o nosso manuseio correto. Logo, não só os homens gozam de um conjunto de privilégios, é preciso também “conceder” aparentes benefícios às mulheres, incentivando a competição entre elas, para que elas acreditem que há alguma forma de premiação dentro desse sistema. E as mulheres são “premiadas” segundo diferentes critérios: submissão aos padrões de beleza, ajuste à moral e aos costumes (mulheres relacionáveis), disposição sexual e capacidade de proporcionar prazer ao homem (mulheres consumíveis)…
Na contemporaneidade líquida, os falsos privilégios femininos estão ligados especialmente ao consumo sexual, de modo que as mulheres precisam comprovar que são livres, donas de seus corpos e bem-resolvidas, mantendo uma aura de autonomia. Essa autonomia sexual precisa ser aparente, não pode representar, em hipótese alguma, uma ruptura com o patriarcado, ela é uma ficção de uso, uma licença. A apropriação da homoafetividade feminina como fetiche é um exemplo de como a liberdade sexual feminina é encarada como uma concessão. Essa autonomia também vende o produto feminino com uma garantia de blindagem emocional: a mulher bem resolvida dá menos trabalho, não precisa de tantos cuidados no trato, não se melindra com qualquer gestozinho agressivo, não demanda tanto desgaste na sua administração.

É interessante para o patriarcado que a nossa sexualidade seja estimulante, garantindo o entretenimento em longo prazo ou o descarte imediato, como todo bem de consumo. Quase nos esquecemos de que existimos para nós, quase nos condenamos a bobas da corte. Agora somos máquinas de prazer. Democratizamos e afirmamos, assim, o sexo como mercado: somos todas profissionais de alguma maneira, eis o sonho machista realizado. O que não representa, de modo algum, a problematização da pornografia ou a libertação da mulher em situação de prostituição, ela permanece segregada e violável.

Resta claro como o patriarcado subverte os nossos processos e rouba a cena que jurávamos protagonizar. Quantas outras causas pensamos alavancar e correm esse mesmo risco? Ou já foram sequestradas e ainda não percebemos? Diante de um sistema que corrompe e usurpa até mesmo a idéia de empoderamento por meio de uma sexualidade mais livre em prol do prazer masculino, o que parece definitivamente libertário? Respondo: o triunfo sobre essa ansiedade por parceiros e pela consagração sexual dentro do jogo de falsos privilégios dados à mulher. É no estado de solitude que essa solidão devastadora e insaciável perde a força. É quando tomamos coragem de romper com a obrigatoriedade de um parceiro, com esse desespero por companhia e afirmação sexual que finalmente podemos empregar a nossa energia em atividades diversas, que nos permitam tomar o mundo, que nos apresentem uma perspectiva de igualdade de gênero a respirar fora da guerra dos sexos. Ou o contrário: é quando empregamos a nossa energia em atividades que nos façam tomar o mundo, que nos apresentem uma perspectiva de igualdade de gênero respirando fora da guerra dos sexos, que tomamos coragem de romper com a obrigatoriedade de um parceiro, com esse desespero por companhia.

De qualquer modo, é preciso autoconhecimento. A nossa intimidade sempre foi objeto de disputa e controle, nunca nos pertenceu. Parece improvável que realmente a gente venha a conhecer relações mais saudáveis e justas sem que haja uma retomada e reconhecimento dessa intimidade, para que nunca mais fique ao cálculo dos interesses culturais, sociais e econômicos traçados pela supremacia masculina. Precisamos nos explorar mais, somos um universo desconhecido para nós mesmas. Aprender a ficar só e a ser por inteiro, virando o tabuleiro da manipulação afetiva e sexual, pode ser um passo determinante para nos desintoxicar de séculos viciadas em submissão, competição e aprovação. Se mesmo o nosso protagonismo em algumas questões pode ser uma ilusão de ótica, aprender a estar consigo e a preencher-se de companhias não sexuais (notem como a sororidade é imprescindível), de objetivos que nos obriguem a ir além de nós e que restaurem o óbvio – não somos as nossas emoções, NÓS TEMOS AS NOSSAS EMOÇÕES – podem ser os únicos passos concretos para a descolonização e autodeterminação femininas.

Maria Gabriela Saldanha

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Os homens que não amavam as mulheres

Imagem: Negahamburguer

Ultimamente, ao ler e entrar cada vez mais em contato com feministas lésbicas eu passei a enxergar minha sexualidade por outra ótica, e passei a enxergá-la como um obstáculo à minha real emancipação. É incrível a lucidez das lésbicas pra falar de gênero, ou melhor, é incrível a lucidez de mulheres que se libertaram da manipulação e da necessidade de aprovação masculina pra falar de gênero.
Sou majoritariamente heterossexual, e com isso quero dizer que já me apaixonei por mulheres e sou aberta a envolvimento afetivo com mulheres, porém a maioria esmagadora das vezes que me apaixonei na vida, e a maioria de todas as minhas experiências até hoje foram heterossexuais. Não consegui ainda descobrir até que ponto a socialização feminina e a heterossexualidade compulsória, às quais fui submetida desde o nascimento, influenciaram a vivência da minha sexualidade. Acredito que essa descoberta seja um processo e, nesse ponto do caminho, me identifico como bissexual, majoritariamente heterossexual.
Ser uma mulher negra e feminista em um relacionamento hétero é um misto de incompletude, abuso, inquietação e culpa. É uma prisão que a minha consciência de que todo relacionamento heterossexual será, em algum nível, abusivo não me blinde de me apaixonar por homens. Cada vez mais em relacionamentos heterossexuais eu sou colocada diante de uma verdade dura que eu não queria realmente acreditar: os homens não amam as mulheres.
Não, os homens não nos amam, não são capazes de algo tão grande por nós. Não são capazes de se deixar por nós, de se abandonar, de abandonar seu lugar de privilégios por nós.
A assimetria que eu enxergo nos relacionamentos heterossexuais é perversa: os homens são socializados pra independência, pra manipulação e pro abuso; e as mulheres, pra dependência, pra carência e pro perdão, assim os dois lados se completam em prol da manutenção do domínio masculino. Essa assimetria é cruel porque faz com que as mulheres se deem muito fácil, faz com que perdoem sempre tudo e que sempre carreguem sozinhas o fardo da manutenção do relacionamento. Ao mesmo tempo faz com que os homens ocupem a posição de conformidade, de “errei de novo, mas me desculpa, sou homem, estou tentando”, o homem se sentirá suficiente, sentirá que já está fazendo muito por apenas tentar e nos manipulará todo o tempo para acreditar que nós é que somos muito difíceis e exigentes. Aqui é importante destacar que ele não trabalhará sozinho nessa manipulação, contará com forte e indispensável ajuda da sociedade patriarcal que, à todo tempo naturaliza abusos em nossa cabeça e faz com que sintamos culpa por não aceitá-los.
Cresci, como muitas meninas, envolta em um ambiente familiar em que observei acontecerem muitos relacionamentos abusivos à minha volta, e foi a partir dessa observação dos abusos cotidianos da vida conjugal que hoje eu entendi o lugar que acabei ocupando dentro de relacionamentos abusivos. Cresci vendo minha mãe, minhas tias, vizinhas, perdoando, sempre e sistematicamente se anulando e aceitando abusos em nome da manutenção de um relacionamento que não era bom pra elas, mas quem eram elas sem um homem do lado? Nós temos medo da solidão, e por isso nos submetemos a tudo, porque nos ensinaram que nada pode ser pior que estar sozinha. Para a sociedade patriarcal uma mulher solteira e que distoa, em algum nível, dos padrões impostos de beleza e feminilidade é a materialização do fracasso e da infelicidade. Sim, é essa a resposta: suportamos e mantemos o que não queremos por medo.
Hoje acredito que aprender a lidar com a solidão talvez seja a única ferramenta efetiva contra relacionamentos abusivos. Aprender a ser só não é uma arma com a qual sou capaz de enfrentar o patriarcado de peito aberto e sair ilesa, mas um escudo com o qual posso alterar minha realidade individual. Estar só nos traz consciência, discernimento, traz força e coragem também. Estar só me trouxe o discernimento de quando o relacionamento é bom pra mim, ou não, me trouxe consciência de que a minha solidão não é um fracasso, de que não preciso anular quem eu sou e me submeter a abusos para estar bem comigo mesma. Minha solidão é um processo de resistência à cultura patriarcal de domínio e de abuso masculino sobre meu corpo e minha humanidade.
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Aprendemos desde cedo que a mulher é quem deve prezar pela manutenção do lar, a qualquer custo, a custo da própria liberdade, dos próprios sentimentos e saúde emocional. Crescemos aprendendo que a mulher deve ser tolerante, que devemos “segurar o homem”, que devemos ser flexíveis e aceitá-lo como ele é porque “homem é assim mesmo”, que devemos ter saúde emocional e paciência além da conta pra aguentar “a natureza selvagem e viril do macho”. 
Eis aí parte  da desgraça da feminilidade.
A nossa desgraça é bonita, a gente aprende a confiar e a perdoar muito facilmente e isso é bonito, tudo isso é, na verdade, super bonito. Tudo isso que a gente sente, toda essa nossa capacidade de amar, de se dar é de uma confiança absurda. Nós compartilhamos com os homens a beleza da nossa desgraça e acreditamos que eles podem entendê-la, acolhê-la, que podem nos amar. Nós damos aos homens uma confiança que eles não merecem, e lhes dedicamos um amor de uma grandeza que eles não tem a capacidade de valorizar. Acreditamos, sempre, e de novo, e outra vez, que tudo pode ser diferente, há uma beleza nessa inocência, uma beleza cruel, uma beleza perversa, uma beleza que sangra e que nunca cicatriza.
Uma coisa que eu aprendi é que os meus sentimentos e minha desgraça, nada disso nunca vai estar acima do privilégio masculino. No fim os homens sempre vão agir se priorizando, foi o que eles aprenderam a fazer, e a gente sempre vai agir se secundarizando, é o que a gente aprendeu a fazer. A manipulação masculina se apresentará de formas sutis: frieza, chantagem emocional, silêncio. E, se não estivermos atentas, nosso amor servirá à manutenção do patriarcado, e a manipulação masculina será capaz de inverter o sentimento de culpa sempre pro nosso lado.
O “amor” masculino precisa da nossa obediência, subserviência, da nossa submissão e servidão sexual pra se manter. O “amor” masculino é muito necessitado da nossa objetificação, consequentemente, da nossa desumanização. O “amor” masculino é algo muito despreocupado com o nosso cuidado, com os nossos sentimentos. O “amor” masculino é extremamente volátil e egoísta, é algo capaz de sumir num passe de mágica em nome da manutenção dos próprios privilégios.
E foi nesse processo de vivência de todas as nuances em que pode se apresentar o abuso e a manipulação masculina dentro de relacionamentos heterossexuais, que eu por fim entendi. Entendi que devo matar essa beleza dentro de mim, devo resistir à feminilidade que me foi imposta e me colocar sempre em primeiro lugar. Devo me priorizar, me ouvir, estar atenta aos meus sinais. Devo parar de me preocupar com os homens de uma forma que eles jamais serão capazes de se preocupar comigo. Dentro de um relacionamento heterossexual, devo ser mais egoísta, devo reverter grande parte do meu cuidado com o outro em auto cuidado. Devo ser “complicada” “difícil” e “exigente”, porque tudo isso é por mim.
Um homem que quisesse nos amar deveria entender tudo isso, deverá entender que a assimetria socialmente imposta pede como resposta que tentemos construir, em esfera micropolítica, um relacionamento contrariamente assimétrico. Devemos resistir aos comportamentos padrão de feminilidade e masculinidade para tentar tornar a relação homem-mulher não-sistematicamente abusiva. Os homens deverão sim priorizar sempre o que a gente sente com relação ao que eles fazem, e não sempre jogar de novo nas nossas costas o peso e a responsabilidade de lidarmos sozinhas com as nossas inseguranças.
Isso não é amor, isso é egoísmo , isso é controle e isso é domínio masculino.

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